segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Princípios bíblicos para a disciplina na Igreja



  Ao falar em disciplina na igreja, as pessoas logo pensam em ações extremas como a exclusão de membros do corpo de Cristo. É verdade que este procedimento também é uma forma de disciplina, entretanto, o significado do termo é bem mais amplo. O vocábulo disciplina como entendemos no vernáculo ocorre apenas quatorze vezes no NT. Em três destas ocorrências, o grego usa “paidéia”   (Ef 6.4; 1 Tm 2.3; Hb 12.7,11).
    Muitas vezes filhos de Deus comportam-se e praticam as ações dos filhos dos homens e até do diabo (Jo 8.44; 1 Jo 3.10; Gl 5.15), por isso, a disciplina torna-se imperiosa em vista da conduta ímpia de muitos cristãos que deveriam viver uma vida de santidade (Ef 5.26).  
  Algumas igrejas onde falta o referencial da sã doutrina da Palavra de Deus admitindo a impossibilidade de fazer a separação do joio do trigo, sentindo a impossibilidade de detectar corretamente quem possui a semente de Deus (1 Jo 3.9) e quem dela precisa, tomam a decisão de evitar qualquer tipo de disciplina sob o pretexto de: “deixar o trigo e o joio crescerem juntos”, entretanto, uma igreja sem disciplina é uma igreja frouxa que definhará espiritualmente.
  Outra atitude comum, é a intolerância e a falta de misericórdia, destituida de qualquer preocupação com o perigo de ofender ou fazer tropeçar “um pequenino que crê em Cristo” (Mt 18.6). Disse um pastor que “a igreja é o único exército que mata os seus feridos”[1]. Já o Dr. Russel Shedd nos lembra que: “enquanto a disciplina eclesiástica comumente coloca fora da igreja o adúltero, que posição a igreja deveria tomar frente àquele que olhou para uma mulher com intenção impura, e adulterou no coração com ela? (Mt 5.28)[2].”   O Deus Santo em toda Bíblia é encontrado exigindo santidade de seus filhos (Lv 11.44; 1 Pe 1.16) e chama seu povo de nação santa (1 Pe 2.9).
    Entendemos que não disciplinar os faltosos significa correr o risco de identificar a Igreja de Deus com o mundo. Nosso dever é nos disciplinarmos a nós mesmos (1 Co 9.24-27). A disciplina orquestrada conforme os ditames da palavra de Deus, visa a preservação da unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.3) e por sua vez promove o crescimento da igreja.
   A disciplina visa à restauração. Porém, o disciplinado deve ser acompanhado e orientado pela igreja em todo o tempo da sua disciplina. Não deve ser afastado dos cultos de instrução e oração, pois neste momento ele está fraco e precisando alimentar seu espírito com as coisas de Deus.
   O arrependido e disciplinado deve ser genuinamente perdoado (Lc 17.3). Deus perdoa, mas a igreja local muitas vezes não esquece, mas isola o irmão e o trata como se não tivesse sido perdoado. A igreja precisa perdoar como Deus o faz (Mq 7.18,19). O apóstolo Paulo exorta a igreja para que a mesma expresse perdão, e amor para com o arrependido, para que “o mesmo não seja consumido por excessiva tristeza” (2 Co 2.7-8).


   
Tipos de disciplina mencionados na Bíblia:
· Disciplina Divina – O Senhor mesmo corrige os Seus filhos pessoalmente (At 5.1-11);
· Disciplina Própria - Onde nós mesmos corrigimos as nossas atitudes erradas (1 Co 11.31);
· Disciplina no Lar - Os pais tem o dever de corrigem seus filhos (Ef 6.4).  

Alguns termos chaves relacionados a disciplina na Igreja
  Russel Shedd em seu livro “A disciplina na Igreja”, amplia o sentido do termo em sete vocábulos que expressam toda  amplitude deste relevante assunto[3]:
·       Disciplina -  Vem de discípulo (gr. matheteuo). A ênfase aqui é o alvo supremo seguir o mestre, formar uma pessoa em conformidade com o caráter do mestre. O “ide” de Jesus não é somente para pregar, mas também para ensinar a Palavra de Deus.

·       Ensino - (gr. didaskalia e didake) - O elemento essencial no discipulado é o ensino.  Como a igreja poderá obedecer ao Senhor Jesus se ignora os seus mandamentos? (Mt 28.20). O Senhor Jesus é chamado "Mestre" (gr. didaskalos) 60 vezes nos evangelhos. Cristo investiu tempo no ensino, instruindo seus discípulos nos paradigmas do Reino de Deus (Mt 5-7), diretamente e por ações (milagres) e parábolas (Mt 13.11). Paulo centrou seu ministério no ensino. Logo que centenas de pessoas se converteram em Éfeso, Paulo ensinou diariamente na escola de Tirano durante 2 anos (At 19.9-10). Assim, pode dizer aos presbíteros de Éfeso "jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus" (At 20.27).

·  Exortação (gr. paraklesis) - Cristo designou o Espírito Santo, o Parakleto[4], ou o encorajador, exortador, advogado. Como substituto perfeito para sua presença física no meio dos discípulos (Jo 14.16-18), o Espírito Santo habita nos crentes (v. 17). Os elementos essenciais da disciplina preventiva, e também positiva, incluem a presença vital do Espírito Santo, o exortador por excelência e a Palavra de Deus, abrangendo o conhecimento, as emoções e a vontade.

·  Educação (gr. paidéia) - Este vocábulo foi usado 8 vezes pelo autor aos Hebreus num só parágrafo (Hb 12.4-11). A correção é fonte de esperança para os que a aplicam e vida para aqueles que a recebem corretamente (Pv 19.18 e 4.13). A correta disciplina deve ser sempre aplicada com amor e nunca com ira (Pv 13.24).

·  Admoestação, advertência (gr. Noulhethon) - Admoestar significa "advertir" - O Apóstolo Paulo, reunido com os presbíteros de Éfeso em Mileto (At 20. 17), os advertiu , dizendo-lhes que após a sua partida (v.31) lobos vorazes atacariam o rebanho. Essa admoestação é feita com lágrimas (v. 37); com profundo amor a Cristo e ao rebanho, feita para preservar a pureza do Evangelho.

·  Repreensão (Elegmós = repreensão, alegchos = prova, Alecgo = reprovação) – Para disciplina, o obreiro do Senhor precisa ter seu coração cheio de amor e estar em íntima comunhão com Deus. Visando sempre restaurar o faltoso a comunhão com Deus e com a sua igreja, levando-o a entender que o único caminho para a restauração espiritual é o arrependimento (Gl 6.1,2).

Como deve ser aplicada a disciplina
A disciplina deve ser aplicada por homens espirituais - cheios do Espírito Santo, prudentes, cheios de amor - Lc 7; Jo 8;
A disciplina deve ser aplicada com a finalidade de ganhar o falho - Não jogá-lo no abismo, mas arrebatá-lo do fogo - Jd 24, corrigi-lo, ampará-lo - Gl 6.1,2 (ntlh);
A disciplina deve ser aplicada com apelo para a conciliação - Fp 4.2
·  A disciplina deve ser aplicada para restaurar o pecador (Mt 18.15; 1 Co 5.5 e Gl 6.1)
·  A disciplina deve ser aplicada para manter a pureza da igreja (1 Co 5.6-8) 
A disciplina deve ser aplicada com moderação (Fp 4.5) Moderação (gr. epeikes) tolerância, aceitação, acolhimento. O Dr. Shedd diz que moderação representa presteza na reconciliação, prontidão no oferecimento de perdão.
A disciplina deve ser aplicada com isenção de ânimo - Jesus lavou os pés dos discípulos (Jo 13), incluindo Judas. Jesus sabia que ele era o traidor, mas não o excluiu da bênção.
A disciplina deve ser aplicada com justiça - Seja um membro simples e pobre, ou um rico e importante. Para o caso escabroso de 1Co 5.6,7, Pauto ordenou que a igreja excluísse o faltoso. Não podia ser tolerado. Escandalizou a igreja e a sociedade. "Todo o pecado que choca o mundo não pode ser tolerado pela igreja".
• A disciplina deve ser aplicada com compaixão (Jd 22.23).


[1] Carl J. Laney, "The Biblical Practice of Church Discipline," Biblioteca Sacra (Outubro-Dezembro 1986): 353-64.
[2] Russel Shedd – Disciplina na Igreja, pág. 9
[3] Russel Shedd – Disciplina na Igreja, págs  13-33
[4] O vocábulo tem os seguintes sentidos: (a) Chamar (b) Intimar (c) Encorajar (d) confortar (e) Consolar.

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